Brasil
Este é um espaço onde as crianças são os filósofos...
viernes, 25 de julio de 2008 03:49
www.unb.br/fe/tef/filoesco/criancas.htmlEm uma Aula no Gama, nós, crianças de dez anos discutimos sobre a relação entre as regras e a liberdade, após a leitura do texto Quando a Escola é de vidro de Ruth Rocha:
Liry - Algumas regras são boas porque fazem com que a gente tenha liberdade, porque senão vira bagunça.
Diogo - Só que não são as regras que fazem a gente ser livre, porque são as regras da lei quem fazem a gente ser preso... e além disso, tem gente que bagunça com as regras.
Dayane - Só que se você pensa assim, eu não entendo se você gosta ou se não gosta das regras... porque você só pode ser livre se os outros deixarem, por exemplo, seu pai e sua mãe dizem se você pode ou não sair na rua para jogar bola. E isso não é uma regra que faz com que você seja livre ou não?
Diogo - Se for assim, não existe liberdade, porque a gente sempre está obedecendo alguém: a professora, a diretora, a mãe, a moça da biblioteca. Mas parece que eu posso fazer coisas que quero, que nem o Firuli, que podia fazer os deveres dele se mexendo com liberdade sem precisar estar dentro do vidro...
Rosana - Você pode fazer o que você quiser desde que não prejudique ninguém, e para isso servem as regras pra que você respeite os outros.
A mesma turma em uma outra discussão sobre a representação após a leitura do primeiro capítulo livro O pequeno príncipe de Antoine de Saint-Exupéry:
Thiago Oliveira - Quem explica o que o desenho quer dizer é quem vê o desenho.
Wesley - Isso é só às vezes. Na matemática o que diz o que tá lá não é quem lê, mas os sinais mesmos, e na arte o desenho é o desenho, mas quem vê ele dá a sua interpretação, nem sempre sendo a mesma coisa que quem fez o desenho queria dizer.
Bianca - Cada coisa tem um motivo para ser entendida do jeito como é entendida.
Danilo - Se eu vejo um pato [olhando para um desenho que pode parecer um pato ou um coelho], porque outra pessoa vai dizer que eu estou errado. Eu estou vendo um pato. O desenho é de quem o vê!
Nossa turma na Escola Classe 03 do Gama inicia uma aula para discutir sobre a violência. Ao elaborarmos as perguntas que norteariam o debate, uma delas nos chama atenção e isso intensifica a discussão:
"Por que a ignorância nos leva à criminalidade?" - pergunta que inicia o debate.
Wesley - Não sei se eu concordo com esta pergunta, pois tem alguns advogados e outras pessoas 'de futuro' que também cometem crimes: não é só a ignorância de não saber coisas da escola, mas de não saber o valor da vida dos outro.
Rosana - As pessoas violentas são as que recebem influência de pais violentos e também de outras pessoas com quem elas vivem.
Rodrigo - Mas será que só as pessoas que convivem com outras pessoas violentas são violentas? E as pessoas que são filhas de pessoas tranquilas e amigas de pessoas calmas? Será que elas são sempre calmas?
Diogo - Não sei, mas os jogos de luta [video-game] faz com que a gente fique violento. A gente joga e sai querendo imitar...
Lonizete - Sei não, viu! Será que as pessoas calmas ficam violentas só por causa dos jogos?
(...)
Thiago Correia - Olha o exemplo dos policiais. Eles foram feitos para nos proteger e no entanto alguns deles saem por aí matando, mesmo os inocentes
Liry - Eu acho que é muito por racismo, pois a maioria dos quem morrem é negra.
Glayce - "Humm, não sei. Talvez o abuso do poder faz com se seja violento"
(...)
Dayane - Algumas pessoas não matam porque querem, mas por acidente. Um exemplo disso são as balas perdidas.
Wanderson - Acho que não. O que é isso de bala perdida? Eu acho que ela não é perdida, mas apenas não acerta o alvo que eu queria. Se eu tento atirar na Emanuele, que está na minha frente e eu erro, matando um menino lá na frente eu não matei sem querer, eu matei querendo, só errei a pessoa
Liry - Eu concordo, não tem essa coisa de bala perdida, pois se eu sei que posso matar, para que atiro?
Danilo - Não sei não, e no caso de alguém que está brincando com um revolver, sem saber se ele está carregado; ele cai e dispara. E ai , teve vontade de ferir?
Liry - Dá no mesmo, quem pega em uma arma sabe que ela pode atirar.
Caic Anísio Teixeira na Ceilândia
Em maio de 2000, estivemos pensando sobre o pensar. Para fazermos isso escutamos uma estória: "Pinote, o fracote e Janjão, o fortão". A estória conta como um menino poderoso, que dava ordens a todos os "amigos", não pôde dominar o mais fraquinho deles, pois não podia controlar o seu pensamento ("Diga ao seu pensamento que ele tem de achar graça das minhas piadas!", ordenava Janjão ao Pinote).
A professora contou a estória e, depois, pediu nos pediu para que nos agrupássemos para discutir a estória e fazermos uma pergunta. No nosso debate aconteceu o seguinte diálogo que tentava discutir as seguites perguntas que foram feitas nos grupinhos (nossa turma é de meninos de 9 anos):
"Por que o Janjão era o mais forte da turma?"
"Por que o Janjão é o fortão?"
"Por que o Janjão só mandava fazer coisas más?"
"Por que aceitaram fazer aquelas brincadeiras?"
"Por que o Pinote não fez nada?"
"Por que o Janjão é o fortão e não conseguia vencer o pensamento do Pinote?"
A pergunta que iniciou o debate foi esta: "Por que o Janjão era o mais forte da turma?"
Diego - Por que ele era gordo.
Marilane - Eu não concordo. Se fosse assim, os nossos colegas aqui da sala que são gordos deveriam ser os mais fortes.
Jéssica T. - É a força de vontade que torna a gente forte.
Jean - Eu concordo com o Diego. O meu irmão é gordo e bate em mim.
Walderson - O pensamento é que torna forte.
Diego - Janjão não sabia usar o pensamento, o Pinote sabia.
Leonardo M. - Quando somos recém-nascidos, nós não sabemos usar o pensamento, mas quando a gente cresce e estuda, aprende a usar o pensamento. Por exemplo, hoje quando a gente decora, a gente usa o pensamento.
Diego - Quando a gente decora, a gente usa outro órgão da cabeça, não o pensamento.
Jéssica T. - Nós temos a memória que fica na cabeça. Por exemplo, quando a gente fala uma coisa hoje e lembra o que disse na semana que vem, isso que é memória.
Diego - São três coisas diferentes: decorar - que é quando você tem que repetir a mesma coisa várias vezes; a memória - que pára de funcionar quando você bate a cabeça; e o pensamento - que é quando a gente constrói alguma coisa na cabeça.
Jéssica T. - Professora, repete a fala do Diego, pois eu tenho outra alternativa.
- Eu uso o pensamento para escrever um livro, fazer uma continha, fazer coisas..., é para isso que serve o pensamento, que é diferente da memória.
Jaqueline - Eu estou pensando em fazer uma poesia, mas para isto vou ter que usar bem o pensamento.
Giulianna - Eu deposito uma quantia de dinheiro e deposito no banco, depois eu preciso do dinheiro e tenho que lembra onde eu deixei o dinheiro. Para isso eu uso o meu pensamento; é ele que me faz lembrar.
Igor - quando a gente bate a cabeça e perde a memória, ela vai para Deus. Quem sabe alguém lá precisa dela...
Jaqueline - Não concordo, porque têm vezes que a gente volta a lembrar, e como é que a memória vai voltar?
Igor - (fica sem resposta)
Diego - Não é assim. Nosso cérebro é como um robô cheio de fios ligados em um motor só. A memória é como um fio ligado ao cérebro. Com a batida, ele se desliga do cérebro e quando faz a cirurgia, ele volta a funcionar.
Jéssica T. - Quando a gente perde a memória, é porque batemos a cabeça, e a memória fica misturada com outras coisas dentro do cérebro.
Professora - Toda vez que a gente pensa, a gente sabe que está pensando?
Walderson - Sim. Porque o pensamento faz parte do corpo, do cérebro. Em todo pensamento, a gente vê as coisas que estamos pensando.
Jaqueline - O nosso sonho vem do pensamento?
Daniel - Fizeram o pensamento junto com o sonho.
Professora - Quem "fizeram"?
Daniel - Deus.
Diego - Não foi Deus quem fez o pensamento, foi a minha mãe. Ela que criou o meu pensamento.
Igor - E quem fez o pensamento da sua mãe?
Diego - A mãe dela, e a avó dela fez o pensamento da mãe dela, e assim foi passando.
Marilene - O sonho é uma coisa que a gente imagina, não é real. A imaginação é diferente do pensamento.
Diego - É verdade; além do pensamento tem a imaginação, a memória e o decorar.
Jéssica T. - Tudo isso são órgãos do cérebro.
Giulianna - Quando a gente sonha, é o nosso pensamento que está reconstruindo aquela história.
Leonardo M. - Eu concordo com o Igor, a memória vai para Deus. É só Deus trazer de volta a memória quando Ele quiser.
Walderson - Eu quero perguntar para o Diego: se ele disse que vem da família o pensamento, então quem fez o pensamento da primeira pessoa da família?
Diego - Deus.
Professora - Então você concorda agora com os outros?
Diego - Não. Ele fez só um pensamento e a partir dali, o pensamento foi indo para os outros.
Walderson - Se fosse assim, eu estaria pensando a mesma coisa que a professora está pensando, e todos estaríamos pensando a mesma coisa.
Leonardo M. - Deus, então, deve ter pensado muito antes de colocar esse pensamento na gente, pois a gente pensa tanta coisa...
Giulianna - O nosso pensamento serve para várias coisas: memorizar, decorar, sonhar, imaginar, tudo isso é uma coisa só, não é diferente como o Diego falou.
Jean - Não concordo com o Diego, o pensamento não vem da mãe, e sim daquilo que a gente faz durante o dia. Por exemplo, se eu vou casar amanhã, eu vou passar o dia todo pensando nisso.
Daniel - A mãe quando está grávida, ela pensa e passa para a criança.
Walderson - Eu acho que o Daniel pensa assim: quando acontece alguma coisa ruim com o filho, a mãe sente e pensa a mesma coisa. Mas isso acontece porque Deus coloca isso nela naquela hora.
Professora - É então a mesma coisa que o Diego disse?
Walderson - Não, isso é outra coisa.
Diego - Passa pelo cordão umbilical, igual a comida que passa, o pensamento também.
Igor - Se nós não somos irmãos, como é que o pensamento foi para famílias diferentes?
Diego - É fácil. O primeiro pensamento Deus colocou em uma só pessoa, e foi passando para várias pessoas. Mais tarde, os médicos descobriram uma fórmula mais fácil, fizeram o raio x e fez a transfusão.
A imaginação
Em uma aula sobre os dois primeiros capítulos de O pequeno príncipe, discutimos:
Por que o menino queria que o homem desenhasse o carneiro?
Walderson - Para poder entender o desenho.
Diego - Não, ele queria andar pelo deserto com um carneiro.
Daniel - Ele queria o desenho, mas não sabia desenhar.
Igor - Ele queria transformar o desenho num carneiro de verdade.
Jean - O menino estava imaginando se o carneiro era de verdade.
Leonardo - Ele pensou que estava lá dentro.
Anderson - Era para não ficar só no deserto.
Jean - É, ele queria o carneiro para comer. A caixa era para ele não escapar.
David - Só gênio para transformar um desenho em realidade.
Jean - No programa da Sandy e Júnior, o Júnior imaginou uma brincadeira. Para quem imagina é real.
Professora - Quando a gente imagina, pode ser real?
Jean - Pode.
Professora - Como, Jean?
Jean - Imaginando, pensando... pode transformar. Fazer um cachorro numa folha de papel, fica de papel. Se faz dobradura, sai da imaginação.
Diego - Mas isso é fantasia, não é real.
Professora - O que é real?
Maylson - É o que aconteceu mesmo.
Jean - Se eu imaginar que aqui em baixo está o mar, e eu estou numa caravela (ele sobe na cadeira) remando em cima do mar, pode estar acontecendo.
Professora - Então é real?
Diego - É real para quem imagina.
David - Ás vezes, ele tem problema de vista, no olho, daí, só ele vê, mais ninguém.
Danilo - Televisão não é real. E todo mundo vê. Eles imaginam os programas e fazem parecer real.
Jean - Mas televisão não transforma em realidade.
Maylson - Professora, aquilo que o Jean falou da caravela, que na verdade é a cadeira, se fosse real, ela ia afundar.
Daniel - Ele pensa que é, mas não é real.
Walderson - Não importa se é ou se não é real. Eu acho que é real mesmo não acontecendo, porque ele está se divertindo.
Flávio - Por que fazer a pergunta se já sabe a resposta?
Professora - Qual é a resposta?
Flávio - A certa.
Professora - E só tem uma resposta certa?
Flávio - Só. Porque nas outras matérias, em matemática, em ciências...., só tem uma resposta certa.
Quem somos nós?
Em uma aula sobre Quem somos nós, utilizando um espelho de verdade e o algum colega como espelho como dinâmica, nos reunimos em grupos e fizemos as seguintes perguntas:
"Quem apareceu no espelho era uma pessoa muito bonita?"
"Como é feito o espelho?"
"Por que o espelho reflete?"
"Por que eu me vejo através de você?"
"Por que o espelho estava olhando para nós?"
"Por que o espelho é menor que a caixa?"
"Por que o Tarcísio olhou para o espelho e não quebrou?"*
A pergunta que colocava o Tarcísio como "o problema" foi a que deu início e norteou toda discussão.
Jéssica - Não é porque tem defeito que o espelho quebra.
Diego - Os espelhos só permitem gente bonita.
Professora - É o espelho que decide quem é bonito e quem é feio?
Diego - É. Se quebrar, ele é feio, se não quebrar o espelho, é bonito.
Daniel - Não quebrou o espelho porque o Tarcísio olhou pouco.
Jaqueline - Eu não concordo. O espelho só quebra se der uma pancada nele.
Professora - Então, para você, não existe essa questão de bonito e feio?
Jaqueline - Não. Todo mundo é igual.
Flávio - Eu não concordo. Ela é de outra cor, e não é igual a mim.
Jaqueline - Eu não quis dizer isso. Eu quis dizer que nem eu nem o Tarcísio somos feios, nem bonitos. Somos pessoas normais.
Professora - O que faz com que a gente seja pessoas normais?
Flávio - Vai nascendo até ficar uma pessoa normal. Pessoa normal é bonita.
Walderson - Pessoa normal é pessoa boa. Só que tem gente que ser melhor do que outra.
Milene - Eu não concordo com a Jaqueline. As pessoas não são iguais, são normais.
Professora - O que é ser normal?
Flávio - A pessoa ser normal é não estar faltando nada nele; braço, perna...
Monitor - E se tiver uma pessoa que não tem braços nem pernas?
Leonardo - Mas tem coração, tripas...
Diego - A pessoa para ser normal não pode faltar nada nele; rim... essas coisas.
Marilaine - Ela é igual, porque ela é uma pessoa.
David - Se eu não tivesse perna, por exemplo, eu seria uma pessoa do mesmo jeito. Deus amaria do mesmo jeito. Ser uma pessoa é ser alguém amado por Deus. Deus ama até um defunto!
Professora - Deus não ama uma árvore não?
David - Ama.
Professora - Então o que é ser uma pessoa?
Walderson - As pessoa débeis mentais não tem vida igual a gente.
Professora - Então, ela deixa de ser uma pessoa?
Walderson - Não, ela é uma pessoa. Mas é uma pessoa infeliz.
Professora - Para ser feliz ela teria que fazer as mesmas coisas que a gente faz?
Walderson - Ele não pode ser feliz porque ele não tem movimento, não pode andar de patins...
Milene - Para ser uma pessoa tem que ter vida.
Professora - Então, um cachorro, uma árvore, são pessoas?
Milene - São.
Flávio - O nenê quando cresce vira humano. Antes ele é como cachorro, porque ele anda de quatro, não fala...
Diego - Ele não é uma pessoa, é uma criança. Pessoa é diferente de criança, porque pessoa é educada e criança não.


